Habitar Uba Budo. Requalificação de uma roça no interior da floresta de São Tomé: Habitar, Produzir e Reunir

Autoria:Rita Lobo de Almeida

Orientação:Joana Bastos Malheiro

Universidade de Lisboa - Faculdade de Arquitectura | Mestrado integrado em Arquitectura

Finalista

Memória descritiva

Uba Budo*. A palavra é desconhecida e é preciso percorrer 4600km, ao longo do Oceano Atlântico, para que esta se torne familiar. É no interior da ilha de São Tomé, entre densas florestas tropicais e às portas de uma reserva natural protegida, que encontramos uma comunidade com uma história denunciada pelos fragmentos construídos, que preservam a memória de um passado distante e parado no seu tempo. Falar deste endémico território de São Tomé e Príncipe, é falar de roças. Este é um termo que designa diferentes assentamentos agrícolas que se estabeleceram ao longo deste território, no séc. XIX, demonstrando ser um eficaz modelo de penetração e ocupação do território. Estas estruturas formularam os princípios morfológicos urbanos que ainda podemos encontrar, quando visitamos este lugar, e a roça Uba Budo é um desses lugares, guardado pela memória de prosperidade e refém de um presente indolente.

Sabe-se que 75% da população de São Tomé e Príncipe vive em contexto de roça e, embora associadas a um passado de prosperidade, hoje, abrigam comunidades esquecidas e cada vez mais isoladas e mergulhadas no interior da floresta.

Tendo consciência da importância destas estruturas no património histórico de São Tomé e Príncipe, na proposta de intervenção define-se o (re)desenho urbano em duas premissas: preservar o edificado roceiro, que permita uma leitura morfológica do conjunto, e um desenho atrativo capaz de dinamizar as regiões interiores da ilha. A transição para uma nova proposta urbana é gradual e encontra-se dividida em três fases segundo escalas de necessidade: a habitação, Habitar, o mercado, Reunir e a fábrica na ruína, Produzir. Na primeira fase, a habitação relaciona o espaço interior da casa com a comunidade e a natureza, podendo crescer num processo evolutivo e adaptativo.  Na segunda fase do projeto, propõem-se a união de duas malhas urbanas diferentes no antigo muro de Uba Budo: o ponto central de um discurso urbano, o elemento de reunião da comunidade. E por último, a terceira fase, nasce com uma vontade de estimular, produzir e difundir um saber que há muito se encontra enraizado naqueles que habitam Uba Budo. Propõem-se um edifício, integrado na ruína, intrinsecamente relacionado com o passado e o presente cacueiro da roça.

* substantivo masculino; termo originário de São Tomé e Príncipe; significa muro de pedra.